No início da revolução industrial, Malthus (1958) apresentou sua polêmica teoria de que a população cresce em ritmo geométrico e a produção em ritmo aritmético e, portanto, os resultados seriam a miséria e a pobreza, em função do desequilíbrio entre os recursos naturais e as necessidades da população. Doenças em massa e guerras, no entanto, regulariam a população e haveria um equilíbrio entre a quantidade de pessoas e os alimentos. Um outro fator regulador dessa relação seria o controle de natalidade. As previsões de Malthus nesse sentido jamais se concretizaram.
Contudo, Kennedy (1993) reexamina a questão sobre a capacidade da humanidade em sobreviver à crise crônica do crescimento populacional além da capacidade de seus recursos. Projetando uma população mundial de quase dez bilhões na metade do século XXI, o autor americano apresenta, pelos resultados políticos, sociais, ambientais e econômicos desse crescimento populacional continuado, como as forças transnacionais, inevitavelmente criarão a instabilidade mundial. A razão estaria numa explosão Malthusiana da população, pois se o mundo tinha 2,5 bilhões de habitantes em 1925, em 2000 tinha mais de 6 bilhões de 2000 (vide Tabela 2). Na visão do autor americano essa população será exacerbada pelos perigos ambientais, pela economia global, pela robótica e pela biotecnologia.
Tabela 2: População total com estimativas e projeções, 1950 - 2010(milhares de pessoas)
Fonte: LABORSTA - Labour Statistics Database. In: International Labour Organization – Geneva, extracted on 07/06/2003.Realmente, analisando os dados da, representados graficamente na Figura 1, pode-se observar claramente que o há um crescimento populacional muito acentuado da população após 1950.
Esse crescimento ocorre nos países caracterizados pela Organização Internacional do Trabalho (International Labour Organization), ligada à Organização das Nações Unidas (ONU), como menos desenvolvidos, pois nos países caracterizados como mais desenvolvidos a população tem permanecido estável.
A melhora nas condições de saneamento e o desenvolvimento da industrias químicas e farmacêutica criaram as condições para o crescimento populacional e para o envelhecimento da população - a expectativa média de vida cresceu em todo o mundo. No entanto esse desenvolvimento na indústria traz consigo uma contradição, pois a possibilidade de tratamento fez com que, em muitos casos, pessoas com doenças possam levar uma vida ativa apesar de não curarem o mal que os aflige.
Fonte: LABORSTA - Labour Statistics Database. In: International Labour Organization – Geneva, extracted on 07/06/2003.Figura 1: População total com estimativas e projeções, 1950 - 2010
A situação pode ser exemplificada com o caso da diabete. Doença crônica conhecida desde 1500 a.C., tem seu tratamento baseado em prática de exercícios, dieta rigorosa e a ingestão de comprimidos ou de insulina. No entanto apenas no século XIX a prática de exercícios e a dieta rigorosa foram prescritas no seu tratamento. O uso da insulina somente foi descoberto em 1921 por dois médicos canadenses da Universidade de Toronto, Banting e Best, e, somente então, seu diagnóstico passou a não significar a morte certa após alguns meses ou anos. Já o uso de comprimidos para tratamento da doença surgiu apenas em 1955. O resultado final dessa evolução é irônico, pois os diabéticos anteriormente morriam pouco tempo após a manifestação da doença, ou eram inférteis; após a descoberta do tratamento, os diabéticos passaram a legar a seus descendentes em escala crescente os genes responsáveis pelo problema, ou seja, com a evolução da medicina no tratamento da doença, a população de diabéticos passa a crescer mais rapidamente que a população em geral (Oppenheim, 1995, p.19).
A explicação para a estabilidade da população dos países mais desenvolvidos deve-se a evolução dos métodos contraceptivos que tiveram grande desenvolvimento nas décadas de 1950 e 1960. Nos países menos desenvolvidos, de tradição latina e católica sempre apresentaram restrições a utilização desses métodos. Motivos culturais e políticas governamentais, aliados à melhoria das condições parecem explicar o crescimento da população dos países asiáticos. Analisando os mesmos dados populacionais apresentados na Tabela 3, agora segmentados por região, também segundo os critérios estabelecidos pela Organização Internacional do Trabalho (OIT), podemos observar que mais da metade da população mundial encontra-se na Ásia, onde estão localizadas a China e a Índia. Embora com focos acentuados de desenvolvimento, principalmente na Coréia do Sul, no Japão e em Hong Kong, a característica principal dos países da região, e muito especialmente os dois mais populosos, é de pobreza.Tabela 3: População Total Estimativas e Projeções, 1950-2010 (milhares de pessoas)
Fonte: LABORSTA - Labour Statistics Database. In: International Labour Organization – Geneva, extracted on 07/06/2003.
Analisando os mesmos dados, agora representados graficamente na Figura 2, observa-se que o patamar populacional dos países da Ásia é impressionantemente superior às outras regiões geográficas, dando a falsa impressão de que estas se mantém estáveis. Na verdade, observando com um pouco mais de atenção, verifica-se que a população européia está estável, enquanto há um crescimento nas regiões da América Latina e Caribe e também na América do Norte. A Oceania embora tenha dobrado a população no período, representa um pouco mais que 0,5% da população mundial. Já a África, também com a maior parte dos países caracterizáveis como pobres, praticamente triplica sua população no mesmo período.
Fonte: LABORSTA - Labour Statistics Database. In: International Labour Organization – Geneva, extracted on 07/06/2003.Figura 2: População mundial por região geográfica
A Figura 3, a Figura 4 e a Figura 5, acrescentam mais informação à essa análise representando graficamente a participação da população dessas regiões pelos setores Agricultura, Industria e Serviços. Na Figura 3 pode-se observar que a participação da Ásia e da África no setor agrícola, embora venha caindo, está em patamares superiores a 70% da população. Sendo essas duas regiões as mais populosas do mundo e também as com os maiores focos de pobreza, são dados que apresentam uma situação crítica. O aumento da produtividade da agricultura está relacionado à automatização dos processos de plantio e colheita, portando não há mais uma relação direta entre aumento de produção agrícola e crescimento de empregos no setor. Observando a curva relativa às demais regiões, verifica-se que há uma acentuada tendência de queda na participação da população no setor agrícola. Nas regiões da Europa e da América do Norte, onde há a maior concentração de países desenvolvidos, a proporção é inferior a 20% da população.

Fonte: LABORSTA - Labour Statistics Database. In: International Labour Organization – Geneva, extracted on 07/06/2003.
Figura 3: Participação da população no setor da agricultura.
Na Figura 4 há a representação gráfica da proporção porcentual da população das regiões geográficas mundiais que atuam na indústria. O índice mais expressivo nesse caso refere-se à Europa e à América do Norte, onde se localizam os países mais desenvolvidos, mas inferior a 40% da população. A tendência nesse setor é de estabilidade com viés de baixa, principalmente na América do Norte. Contudo, nas regiões mais populosas e menos desenvolvidas, há uma tendência de alta, embora estejam a níveis inferiores a 10% da população. Há que se levar em conta, que apesar de ter uma participação porcentual baixa, esses países tem uma população muito alta, ou seja, em termos absolutos pequenos aumentos na proporção percentual da população em um setor significa uma grande quantidade de pessoas.
Essa é mais uma informação importante, pois revela um foco industrial nesses países que está absorvendo mão-de-obra, quando nos países desenvolvidos há a utilização da robótica nas funções mais mecânicas da produção, de tal forma que, assim como na agricultura, aumentos de produtividade e crescimento do parque industrial instalado não implicam necessariamente no aumento de empregos. Aliás, a figura sugere justamente o contrário, pois a população que atua nesse setor está diminuindo proporcionalmente ao total da população.
Fonte: LABORSTA - Labour Statistics Database. In: International Labour Organization – Geneva, extracted on 07/06/2003.Figura 4: Participação da população no setor da indústria.
A Figura 5 vem confirmar a idéia de que a sociedade pós-industrial é caracterizada pela prestação de serviços. Todas as regiões geográficas apontam crescimento na proporção da população atuando nesse setor, seja naquelas com a maioria de paises participantes pertencentes ao grupo de países mais desenvolvidos, seja naquelas com a maioria de paises participantes pertencentes ao grupo de países menos desenvolvidos.
Os países da América do Norte têm a maior participação da população nesse setor, superando os 50%. Já a África e a Ásia que apresentam um incremento na participação da população em serviços tem a menor participação populacional nesses setores.

Fonte: LABORSTA - Labour Statistics Database. In: International Labour Organization – Geneva, extracted on 07/06/2003.
Figura 5: Participação da população no setor de serviços.
Um outro aspecto interessante a se analisar diz respeito à participação da população economicamente ativa frente à população total. Conforme pode ser observado na Figura 6, em que estão novamente representados graficamente as regiões geográficas, depois de uma queda geral nos entre 1950 e 1970, pode-se identificar dois blocos:
- Os países da América Latina e Caribe e os países da África, que estão na
faixa de 45% de população economicamente ativa. No entanto, a África teve uma
queda muito acentuada no seu índice nos últimos 50 anos, enquanto a América
Latina e o Caribe, após 1970, tem uma forte tendência de crescimento. - Os países da Europa, Ásia, América do Norte e Oceania, que estão na faixa
de 50% de população economicamente ativa. Todas essas regiões têm curvaturas
semelhantes e convergem para o mesmo índice.
Fonte: LABORSTA - Labour Statistics Database. In: International Labour Organization – Geneva, extracted on 07/06/2003.
