Sábado, Março 11, 2006

Da sociedade pré-industrial para a sociedade pós-industrial (5)

A grande questão que se apresenta para a sociedade pós-industrial é que a produção cresce, mas o emprego não acompanha esse crescimento, desaparecendo a antiga relação entre crescimento de produção e crescimento do emprego. O crescimento da produção é feito com base em processos que poupam mão-de-obra. Assim, por essa razão, os empregos que surgem oriundos desse incremento de produção são de baixa qualidade e os com boa remuneração são escassos (Kennedy, 1993).

No início da revolução industrial, Malthus (1958) apresentou sua polêmica teoria de que a população cresce em ritmo geométrico e a produção em ritmo aritmético e, portanto, os resultados seriam a miséria e a pobreza, em função do desequilíbrio entre os recursos naturais e as necessidades da população. Doenças em massa e guerras, no entanto, regulariam a população e haveria um equilíbrio entre a quantidade de pessoas e os alimentos. Um outro fator regulador dessa relação seria o controle de natalidade. As previsões de Malthus nesse sentido jamais se concretizaram.

Contudo, Kennedy (1993) reexamina a questão sobre a capacidade da humanidade em sobreviver à crise crônica do crescimento populacional além da capacidade de seus recursos. Projetando uma população mundial de quase dez bilhões na metade do século XXI, o autor americano apresenta, pelos resultados políticos, sociais, ambientais e econômicos desse crescimento populacional continuado, como as forças transnacionais, inevitavelmente criarão a instabilidade mundial. A razão estaria numa explosão Malthusiana da população, pois se o mundo tinha 2,5 bilhões de habitantes em 1925, em 2000 tinha mais de 6 bilhões de 2000 (vide Tabela 2). Na visão do autor americano essa população será exacerbada pelos perigos ambientais, pela economia global, pela robótica e pela biotecnologia.

Tabela 2: População total com estimativas e projeções, 1950 - 2010(milhares de pessoas)

Fonte: LABORSTA - Labour Statistics Database. In: International Labour Organization – Geneva, extracted on 07/06/2003.

Realmente, analisando os dados da, representados graficamente na Figura 1, pode-se observar claramente que o há um crescimento populacional muito acentuado da população após 1950.
Esse crescimento ocorre nos países caracterizados pela Organização Internacional do Trabalho (International Labour Organization), ligada à Organização das Nações Unidas (ONU), como menos desenvolvidos, pois nos países caracterizados como mais desenvolvidos a população tem permanecido estável.

A melhora nas condições de saneamento e o desenvolvimento da industrias químicas e farmacêutica criaram as condições para o crescimento populacional e para o envelhecimento da população - a expectativa média de vida cresceu em todo o mundo. No entanto esse desenvolvimento na indústria traz consigo uma contradição, pois a possibilidade de tratamento fez com que, em muitos casos, pessoas com doenças possam levar uma vida ativa apesar de não curarem o mal que os aflige.

Fonte: LABORSTA - Labour Statistics Database. In: International Labour Organization – Geneva, extracted on 07/06/2003.

Figura 1: População total com estimativas e projeções, 1950 - 2010

A situação pode ser exemplificada com o caso da diabete. Doença crônica conhecida desde 1500 a.C., tem seu tratamento baseado em prática de exercícios, dieta rigorosa e a ingestão de comprimidos ou de insulina. No entanto apenas no século XIX a prática de exercícios e a dieta rigorosa foram prescritas no seu tratamento. O uso da insulina somente foi descoberto em 1921 por dois médicos canadenses da Universidade de Toronto, Banting e Best, e, somente então, seu diagnóstico passou a não significar a morte certa após alguns meses ou anos. Já o uso de comprimidos para tratamento da doença surgiu apenas em 1955. O resultado final dessa evolução é irônico, pois os diabéticos anteriormente morriam pouco tempo após a manifestação da doença, ou eram inférteis; após a descoberta do tratamento, os diabéticos passaram a legar a seus descendentes em escala crescente os genes responsáveis pelo problema, ou seja, com a evolução da medicina no tratamento da doença, a população de diabéticos passa a crescer mais rapidamente que a população em geral (Oppenheim, 1995, p.19).

A explicação para a estabilidade da população dos países mais desenvolvidos deve-se a evolução dos métodos contraceptivos que tiveram grande desenvolvimento nas décadas de 1950 e 1960. Nos países menos desenvolvidos, de tradição latina e católica sempre apresentaram restrições a utilização desses métodos. Motivos culturais e políticas governamentais, aliados à melhoria das condições parecem explicar o crescimento da população dos países asiáticos.
Analisando os mesmos dados populacionais apresentados na Tabela 3, agora segmentados por região, também segundo os critérios estabelecidos pela Organização Internacional do Trabalho (OIT), podemos observar que mais da metade da população mundial encontra-se na Ásia, onde estão localizadas a China e a Índia. Embora com focos acentuados de desenvolvimento, principalmente na Coréia do Sul, no Japão e em Hong Kong, a característica principal dos países da região, e muito especialmente os dois mais populosos, é de pobreza.

Tabela 3: População Total Estimativas e Projeções, 1950-2010 (milhares de pessoas)

Fonte: LABORSTA - Labour Statistics Database. In: International Labour Organization – Geneva, extracted on 07/06/2003.

Analisando os mesmos dados, agora representados graficamente na Figura 2, observa-se que o patamar populacional dos países da Ásia é impressionantemente superior às outras regiões geográficas, dando a falsa impressão de que estas se mantém estáveis. Na verdade, observando com um pouco mais de atenção, verifica-se que a população européia está estável, enquanto há um crescimento nas regiões da América Latina e Caribe e também na América do Norte. A Oceania embora tenha dobrado a população no período, representa um pouco mais que 0,5% da população mundial. Já a África, também com a maior parte dos países caracterizáveis como pobres, praticamente triplica sua população no mesmo período.

Fonte: LABORSTA - Labour Statistics Database. In: International Labour Organization – Geneva, extracted on 07/06/2003.
Figura 2: População mundial por região geográfica
A Figura 3, a Figura 4 e a Figura 5, acrescentam mais informação à essa análise representando graficamente a participação da população dessas regiões pelos setores Agricultura, Industria e Serviços. Na Figura 3 pode-se observar que a participação da Ásia e da África no setor agrícola, embora venha caindo, está em patamares superiores a 70% da população. Sendo essas duas regiões as mais populosas do mundo e também as com os maiores focos de pobreza, são dados que apresentam uma situação crítica. O aumento da produtividade da agricultura está relacionado à automatização dos processos de plantio e colheita, portando não há mais uma relação direta entre aumento de produção agrícola e crescimento de empregos no setor. Observando a curva relativa às demais regiões, verifica-se que há uma acentuada tendência de queda na participação da população no setor agrícola. Nas regiões da Europa e da América do Norte, onde há a maior concentração de países desenvolvidos, a proporção é inferior a 20% da população.

Fonte: LABORSTA - Labour Statistics Database. In: International Labour Organization – Geneva, extracted on 07/06/2003.
Figura 3: Participação da população no setor da agricultura.
Na Figura 4 há a representação gráfica da proporção porcentual da população das regiões geográficas mundiais que atuam na indústria. O índice mais expressivo nesse caso refere-se à Europa e à América do Norte, onde se localizam os países mais desenvolvidos, mas inferior a 40% da população. A tendência nesse setor é de estabilidade com viés de baixa, principalmente na América do Norte. Contudo, nas regiões mais populosas e menos desenvolvidas, há uma tendência de alta, embora estejam a níveis inferiores a 10% da população. Há que se levar em conta, que apesar de ter uma participação porcentual baixa, esses países tem uma população muito alta, ou seja, em termos absolutos pequenos aumentos na proporção percentual da população em um setor significa uma grande quantidade de pessoas.
Essa é mais uma informação importante, pois revela um foco industrial nesses países que está absorvendo mão-de-obra, quando nos países desenvolvidos há a utilização da robótica nas funções mais mecânicas da produção, de tal forma que, assim como na agricultura, aumentos de produtividade e crescimento do parque industrial instalado não implicam necessariamente no aumento de empregos. Aliás, a figura sugere justamente o contrário, pois a população que atua nesse setor está diminuindo proporcionalmente ao total da população.

Fonte: LABORSTA - Labour Statistics Database. In: International Labour Organization – Geneva, extracted on 07/06/2003.
Figura 4: Participação da população no setor da indústria.
A Figura 5 vem confirmar a idéia de que a sociedade pós-industrial é caracterizada pela prestação de serviços. Todas as regiões geográficas apontam crescimento na proporção da população atuando nesse setor, seja naquelas com a maioria de paises participantes pertencentes ao grupo de países mais desenvolvidos, seja naquelas com a maioria de paises participantes pertencentes ao grupo de países menos desenvolvidos.
Os países da América do Norte têm a maior participação da população nesse setor, superando os 50%. Já a África e a Ásia que apresentam um incremento na participação da população em serviços tem a menor participação populacional nesses setores.

Fonte: LABORSTA - Labour Statistics Database. In: International Labour Organization – Geneva, extracted on 07/06/2003.
Figura 5: Participação da população no setor de serviços.
Um outro aspecto interessante a se analisar diz respeito à participação da população economicamente ativa frente à população total. Conforme pode ser observado na Figura 6, em que estão novamente representados graficamente as regiões geográficas, depois de uma queda geral nos entre 1950 e 1970, pode-se identificar dois blocos:
  • Os países da América Latina e Caribe e os países da África, que estão na
    faixa de 45% de população economicamente ativa. No entanto, a África teve uma
    queda muito acentuada no seu índice nos últimos 50 anos, enquanto a América
    Latina e o Caribe, após 1970, tem uma forte tendência de crescimento.
  • Os países da Europa, Ásia, América do Norte e Oceania, que estão na faixa
    de 50% de população economicamente ativa. Todas essas regiões têm curvaturas
    semelhantes e convergem para o mesmo índice.
    Fonte: LABORSTA - Labour Statistics Database. In: International Labour Organization – Geneva, extracted on 07/06/2003.
Figura 6: Participação da população economicamente ativa na população total.

Da sociedade pré-industrial para a sociedade pós-industrial (4)

A sociedade pós-industrial.
Principais características da sociedade pós-industrial
Assim como aconteceu na passagem para a sociedade industrial, a passagem para a sociedade pós-industrial contem uma certeza, que a nova sociedade não mais se caracteriza pelo modo de produção industrial, mas não há uma certeza ou compreensão sobre qual fator ou processo irá caracterizá-la (De Masi, 1999, p. 30), seja ele a informação, a estrutura da personalidade ou o impacto da programação; daí os inúmeros títulos propostos para designar esses novos tempos.
De Masi (1999, p.33) aponta os cinco aspectos que definem a sociedade pós-industrial:
  • A passagem da produção de bens para a economia de serviços.
  • A preeminência da classe dos profissionais e dos técnicos.
  • O caráter central do saber teórico, gerador da inovação e das idéias diretivas nas quais a coletividade se inspira.
  • A gestão do desenvolvimento técnico e o controle normativo da tecnologia.
  • A criação de uma nova tecnologia intelectual.

À imagem global e complexa da sociedade que resulta da observação do quadro como um todo, ainda há que se acrescentar que como a sociedade pré-industrial esteve presente por séculos e a sociedade industrial, com toda sua força e todas as mudanças implementadas, esteve presente por um tempo mais reduzido, valores e idéias ligadas oriundos da sociedade pré-industrial ainda permanecem na sociedade pós-industrial, moldando atitudes e comportamentos.

Da sociedade pré-industrial para a sociedade pós-industrial (3)

A Sociedade Industrial
A passagem para a sociedade industrial trouxe consigo profundas transformações, numa rapidez sem precedentes (Drucker, 2001, p. 22). No entanto, comparada com a longevidade da sociedade pré-industrial - com suas fases históricas caracterizadas pela caça, pelo pastoreio, pelo trabalho agrícola e pela grande transformação mercantil - a sociedade industrial é mais reduzida (De Masi, 1999, p. 12).
Embora a data inicial seja controversa, não há dúvidas de que na primeira metade do século XIX houve a propagação do conceito da sociedade industrial, juntamente com o reconhecimento dos dois principais aspectos desenvolvidos na modernidade, que são a democracia e a industrialização, permitindo que ocorra a igualdade social paralelamente à aplicação da ciência à produção (Aron, 1970).
No entanto, esse conceito - sociedade industrial - é anterior ao século XIX. Drucker (2001, 17) afirma que os avanços técnicos que possibilitaram a Revolução Industrial foram impulsionados por uma radical mudança no significado do conhecimento, que anteriormente era estritamente privado e somente aplicado ao ser, passando a ser um bem público e aplicado ao fazer. Dessa forma, tornando-se um recurso e uma utilidade, o conhecimento foi aplicado em diferentes fases do processo de industrialização:
  • Primeira fase (1750 a 1880): o conhecimento foi aplicado a ferramentas, processos e produtos.
  • Segunda fase (1880 até a Segunda Guerra Mundial): o conhecimento passou a ser aplicado ao trabalho.
  • Terceira fase (após a Segunda Guerra Mundial): o conhecimento passou a ser aplicado ao conhecimento em si.
Aron (1970) afirma que tanto os capitalistas, quanto os socialistas rejeitaram o termo sociedade industrial, uma vez que os primeiros preferiam atribuir o crescimento generalizado da prosperidade ao liberalismo, enquanto os outros não aceitavam essa “máscara” ao conflito fundamental entre as classes sociais.
Entretanto, complementa Aron (1970), as similaridades parciais entre ambos os regimes, juntamente com o contraste entre países mais desenvolvidos e menos desenvolvidos, impuseram o uso do conceito para designar um tipo social sem precedentes: sociedades que se esforçam para produzir tão eficazmente quanto possível, renovando os instrumentos e a organização do trabalho de acordo com o progresso da ciência. Verifica-se assim na sociedade industrial o progresso em velocidade crescente de alguns fenômenos:
  • Esforço para produzir.
  • O progresso da ciência.
  • O casamento da ciência e da tecnologia com os meios de produção.
Há um grande dilema para a sociedade industrial, segundo Roche (2000, p.17), pela passagem de uma civilização da raridade e da economia estacionária – pré-industrial - para uma civilização do desenvolvimento e da abundância. Nessa realidade há, segundo o autor francês, uma dupla armadilha:
  • A nostalgia, “que vê em todas as sociedades antigas o mundo que nós perdemos porque os valores não podem mais ser os nossos...”.
  • O fetichismo da mercadoria, do produtivismo e do elogio a um desenvolvimento sem limites ou problemas, “do qual devemos nos conscientizar de que a contrapartida é uma perda profunda do real, a reedificação da relação com as coisas e o triunfo dos sinais dos quais o dinheiro é o símbolo”.

Da sociedade pré-industrial para a sociedade pós-industrial (2)

A SOCIEDADE PRÉ-INDUSTRIAL
Desde o século XIV as distâncias entre os pontos distintos do globo terrestre começaram a serem percorridas em um menor tempo e as diferentes culturas existentes a se relacionarem com maior intensidade. Embora os europeus sejam os que mais vantagens alcançaram pelo comércio internacional no período pré-industrial, outros povos como os chineses e os otomanos, como poderemos ver a seguir, também tiveram oportunidade de participar desse processo, mas, principalmente por questões internas, em sua maior parte ligadas aos valores -aqui entendidos como crenças – acabaram fechando-se sobre si mesmos e deixaram o espaço aberto para os países do ocidente.
O Império Chinês
Na Ásia, o império chinês apresentava uma civilização em que, comparando-se com os padrões europeus, havia uma surpreendente precocidade tecnológica (Kennedy, 1989; p. 16):
  • No século XI havia bibliotecas enormes e, com o surgimento dos tipos móveis, um grande número de livros passou a existir.
  • Havia uma indústria do ferro na região norte que produzia 125.000 toneladas por ano, quantidade superior à das primeiras fases da Revolução Industrial na Inglaterra, 700 anos depois.
  • As rotas comerciais chinesas eram intensas e requintadas, com a circulação do papel-moeda intensificando as trocas e o crescimento dos mercados.
  • A pólvora foi uma provável invenção chinesa.
  • A bússola magnética foi uma outra invenção chinesa.
  • Os chineses também se voltaram para a exploração e comércio do além-mar, havendo uma frota militar (1350 navios de combate) e muitos navios administrados privadamente que comerciavam com a Coréia, o Japão, o sudeste da Ásia e a África Oriental. Entre 1405 e 1433 o almirante Cheng Ho realizou sete cruzeiros de longa distância, com embarcações, segundo estimativas de historiadores e arqueólogos, de 120 metros de comprimento e que teriam deslocado mais de 1.500 toneladas de tesouros e mercadorias.
Contudo, segundo o historiador da Universidade de Yale, Paul Kennedy (1989, p. 17), entre outras razões, além dos custos e dos impostos cobrados, esse desenvolvimento baseado na expansão e no comércio de além-mar acaba sofrendo uma ação contrária da burocracia confunciana, muito importante nos tempos da dinastia Ming. Segundo as crenças do código confunciano, a guerra seria uma atividade deplorável, havendo aversão pelo exército e pela marinha. Além disso, havia uma grande desconfiança para com os comerciantes, o acumulo de capital privado, a prática de comprar barato e vender caro, e a ostentação do novo-rico.
Assim, os canais decaíram, o exército ficou sem abastecimento, as fundições foram caindo em desuso, a imprensa ficou limitada às obras de erudição e o uso do papel-moeda foi suspenso. O vasto e populoso país, com cultura e riquezas impressionantes, fechara-se sobre si mesmo (Kennedy, 1989; p. 19).
O Império Otomano
Já no mundo muçulmano, o Império Otomano estabeleceu uma unidade de religião, cultura e língua oficiais em uma área maior que o antigo Império Romano. Antes do século XVI, os muçulmanos estavam em termos culturais e tecnológicos mais adiantados que os países europeus (Kennedy, 1989; p.20), com grandes cidades iluminadas, com esgotos e, em alguns casos, universidades e bibliotecas, além de uma grade beleza arquitetônica. Havia um grande desenvolvimento científico, em matemática, cartografia, medicina e também na indústria (moinhos, fundição de canhões, faróis e criação de cavalos). A cidade de Istambul chega a ter mais de 500 mil habitantes e durante o reinado de Suleiman I, o magnífico, o Império Otomano tinha cerca de 14 milhões de súditos.
Em meados do século XVI, no entanto, a defesa das fronteiras de sua vasta extensão territorial e a divisão interna causada por motivos religiosos – xiitas - começa a criar uma variedade de problemas para os sultões que se sucediam. Com um sistema de governo extremamente centralizado, em que o sultão, comparativamente, tinha mais poder que um papa ou um imperador do Sacro Império Romano-Germânico, uma sucessão de sultões incompetentes (Kennedy, 1989; p. 21) acaba direcionando a burocracia para o conservadorismo, sufocando a inovação. Mas, o pior efeito foi a paralisação da expansão territorial. Sem ela, o exército de janízaros não realizava mais pilhagens e, descontentes com o processo inflacionário, iniciam saques internos. Dessa forma, os comerciantes e empresários, que anteriormente eram estimulados, passam a ser vítimas de saques, além de aumentos de impostos e confiscos de suas propriedades. Isso gerou uma debandada geral das cidades e a ruína do comércio.
Paralelamente, devido à divisão religiosa, há uma violenta reação cultural, com a proibição da impressão de textos para evitar a disseminação de opiniões “perigosas”. Assim, da mesma forma que o Império Chinês, os otomanos também se fecharam em si mesmos.
O domínio europeu
O desencadeamento de um processo incessante de desenvolvimento econômico e inovação tecnológica que faria dos dispersos e pouco adiantados habitantes do ocidente da Eurásia os líderes comerciais e militares do mundo tem estimulado estudo há séculos. Kennedy (1989, p. 25) apresenta uma síntese do conhecimento existente a respeito, baseado na existência de uma dinâmica impulsiona por avanços econômicos e tecnológicos, que interagem com a estrutura social, a geografia e a ocasionalidade:
  • A Europa sempre foi politicamente fragmentada, apesar dos romanos e de algumas concentrações ocasionais de autoridade, como a de Carlos Magno e Kevian. Essa diversidade política deve-se principalmente à sua geografia acidentada, com cadeias de montanhas e grandes florestas entre as concentrações populacionais. Com isso as defesas eram privilegiadas, dificultando ataques e invasões.
  • O clima é outro fator importante, pois uma produção variada incentiva à troca e, assim, as relações de mercados e os meios de transporte desenvolvem-se. Além disso, os produtos eram transportáveis a granel, permitindo o uso da estrutura fluvial, que é mais econômica. Outra característica é que os produtos comercializados eram madeira, cereais, vinho, lã e arenques, enquanto as caravanas orientais transportavam artigos de luxo.
  • O desenvolvimento do comércio levou ao crescimento de importantes centros comerciais, que continuaram desenvolvendo-se apesar de alguns focos bélicos. Essa realidade comercial gerou também o crescimento de um sistema de crédito mercantil e bancário internacional, criando as condições para que os comerciantes privados tivessem uma inédita previsibilidade econômica.
  • Quando um príncipe ou senhor local pilhava ou expulsava os mercadores e seus usos, sempre havia outro príncipe ou senhor local disposto a tolerá-los. Assim comerciantes judeus, trabalhadores têxteis, flamengos arruinados ou huguenotes perseguidos mudavam-se levando consigo os seus conhecimentos. Aos poucos, a maioria dos regimes da Europa estabeleceu uma ordem interna e um sistema jurídico que estabelecia uma relação com a economia do mercado, recolhendo impostos sobre uma parcela dos crescentes lucros dos comerciantes.
  • O sistema de estados descentralizados europeu, resultado da existência de várias entidades políticas em competição, com poder para comprar os meio militares necessários para a preservação de sua independência, impediu a criação de um império como nos casos chinês e otomano. Mais que isso, houve um desenvolvimento tecnológico da indústria bélica.

Bibliografia

Kennedy, Paul. Ascensão e queda das grandes potências: transformação econômica e conflito militar de 1500 a 2000. Rio de janeiro: Campus, 1989.

Da sociedade pré-industrial para a sociedade pós-industrial (1)

As transformações profundas trazidas pela revolução industrial acabaram resultando na sociedade industrial cujas características que a diferenciam da sociedade anterior, que pode ser identificada por sociedade pré-industrial, são principalmente o esforço para produzir, o progresso da ciência e o casamento da ciência e da tecnologia com os meios de produção (Aron, 1970).
Uma das maiores diferenças entre a sociedades pré-industrial, industrial e pós-industrial é a maneira pela qual cada uma delas trata os seus recursos. Se na sociedade pré-industrial havia recursos escassos e muita pobreza, na sociedade industrial, principalmente após sua segunda fase, há a idéia de recursos abundantes, baseada no conceito de que quanto maior for a produção, maior será o ganho de escala na produção em massa e haverá um custo menor para o cliente. Já na sociedade pós-industrial, a idéia é de preservação, pois os recursos são finitos e devem ser renováveis. No entanto, como a sociedade industrial não atravessou muitas gerações, valores enraizados na sociedade pré-industrial ainda estão presentes na sociedade pós-industrial.
A distribuição geográfica da população e a divisão econômica em países mais ou menos desenvolvidos refletem a desigualdade das estruturas e dos mercados. Enquanto alguns países estão avançando na sociedade pós-industrial, alguns paises asiáticos têm características próprias da sociedade pré-industrial. Contudo, mesmo esses países estão participando do processo de globalização.
O mais importante da sociedade pós-industrial é o conceito proposto por Castells (1999) de sociedade em rede, quando todas as relações entre empresas, trabalhadores e governos têm os seus os processos organizados em redes, sendo que a lógica das redes gera uma relação em que o poder dos fluxos é mais importante que os fluxos do poder. Daí vem a possibilidade de integração de universos tão distintos.